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Diário Medicina Preventiva

Uma intensa viagem pelo dia-a-dia de uma estudante de Medicina e, além disso, algumas indicações sobre a importância da prevenção para preservarmos a nossa saúde.

Diário Medicina Preventiva

Uma intensa viagem pelo dia-a-dia de uma estudante de Medicina e, além disso, algumas indicações sobre a importância da prevenção para preservarmos a nossa saúde.

23.Mai.07

DIA DO AUTOR PORTUGUÊS

 

Porque ontem foi o Dia do Autor Português, não posso deixar de assinalar esta tão importante data com uma pequena homenagem ao esplêndido mundo literário português, que muitas vezes esquecemos, para valorizar o que é estrangeiro.

No que toca a literatura uma coisa é certa: nas traduções perde-se imenso. Por melhor que seja a tradução, as palavras não são aquelas que o autor demorou tempo a escolher, o significado pode estar ligeiramente alterado, a sonoridade não é certamente a mesma.

 

Enfim, aos autores portugueses, do melhor que o país tem:

 

"São Leonardo da Galafura
À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.

Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!"

            Miguel Torga
 
"Hora
Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

                    Sophia de Mello Breyner Andresen

"Ouvir era um segredo. Ela ouvia muitas coisas, algumas impossíveis. 
Por exemplo, bastava-lhe olhar a pauta para ouvir a música lá escrita. 
Como se dentro dela alguém tocasse. Às vezes ela saía, caminhava na rua, 
tocando apenas mentalmente, para não se deixar interromper. 
Só quando chovia, ela se abrigava debaixo de uma varanda ou no varão de 
uma porta, parava mentalmente de tocar e fechava o piano."
			Teolinda Gersão in Os Teclados
"Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu."
		Fernando Pessoa